30 April 2007

(2006) The Departed


"The Departed" é o filme mais recente de Martin Scorsese, tendo sido premiado com 4 Oscars da Academia, entre os quais se destacam a consagração como melhor filme do ano e a atribuição da estatueta dourada àquele que é o melhor realizador da actualidade.

No meio da guerra que decorre na cidade de Boston entre a polícia estatal e o crime organizado irlandês, William Costigan, um jovem cadete acabado de sair da Academia de Polícia, é destacado para se infiltrar na organização mafiosa liderada por Frank Costello, com o objectivo de conseguir provas suficientes para colocar este último atrás das grades. Os líderes da unidade de agentes infiltrados são Captain Queenan e Staff Sargeant Dignam, as únicas pessoas que conhecem a verdadeira identidade de William. Em simultâneo, Colin Sullivan, também ele um cadete acabado de se formar, rapidamente sobe na hierarquia policial até ser destacado para uma unidade de investigação especial. Na verdade, Colin está infiltrado na polícia sob as ordens de Costello, com o intuito de ser os olhos e os ouvidos da máfia nas forças da lei.

A intensidade da estória sobe quase vertiginosamente a partir do momento que surgem indícios da existência de "toupeiras" tanto na polícia como na máfia. Colin e William são lentamente consumidos pela vida dupla que levam e, perante o perigo de serem descobertos, são sujeitos a constantes provas à sua capacidade de lidar com a pressão e de esconderem o que são na realidade. A própria lealdade de ambos os infiltrados começa inclusivamente a tornar-se difícil de clarificar com a progressiva adaptação às suas posições sociais.

Relativamente ao elenco, gostaria de enaltecer os seguintes actores:
  • Leonardo DiCaprio é William Costigan, o polícia infiltrado na máfia irlandesa. DiCaprio é absolutamente fantástico e apenas posso especular que a sua nomeação por este papel para o Oscar de Melhor Actor, se me permitem a expressão, "tenha ficado na gaveta" para que um dado papel biográfico pudesse ser galardoado sem qualquer concorrência à altura.

  • Matt Damon é Colin Sullivan, a "toupeira" infiltrada na polícia a mando da máfia irlandesa. O seu desempenho é consistente e adequado à personagem.

  • Jack Nicholson é Frank Costello, o líder da máfia irlandesa. Mais uma vez, não percebo o porquê da sua ausência da lista de nomeados para o Oscar de Melhor Actor Secundário. O seu papel é poderosíssimo. Enfim...

  • Mark Wahlberg é Staff Sargeant Dignam, um polícia duro e sem papas na língua que co-lidera a secção de agentes infiltrados da polícia de Boston. A grande maioria das asneiras proferidas ao longo do filme dizem respeito às falas desta personagem. Até ao dia em que vi este filme, tinha bastantes dúvidas acerca do talento de Wahlberg como actor, sendo que apenas conseguia destacar o papel que havia desempenhado em "Boogie Nights". A verdade é que conseguiu alterar por completo a minha opinião inicial e a sua nomeação para o Oscar de Melhor Actor Secundário foi totalmente merecida. A consistência e realismo que traz ao filme são imprescindíveis para a sua qualidade.

  • Martin Sheen é Captain Queenan, o experiente agente que lidera os agentes infiltrados. Mais um excelente desempenho com a consistência com que já nos habituou a todos.

  • Alec Baldwin é Captain Ellerby, o chefe da secção especial de investigação da polícia de Boston. Baldwin é um grande actor e, com o seu papel neste filme, consegue demonstrar todo o seu talento para desempenhar personagens simultaneamente vulgares e peculiares.

Até ao dia em que vi este filme pela primeira vez, os três melhores filmes de Scorsese eram "Goodfellas", "Taxi Driver" e "Raging Bull". No entanto, e ao contrário do que alguns pseudo-intelectuais que pensam que são críticos de cinema afirmaram, este é o melhor filme de Scorsese até à data. Ultrapassa confortavelmente tanto "Taxi Driver" como "Raging Bull", e vence "Goodfellas" pela ponta de um cabelo. Uma obra de arte! Um hino ao que é o verdadeiro cinema!

Pontuação global: 9,4

27 April 2007

(2005) Pride & Prejudice


"Pride & Prejudice" é a adaptação ao grande écrã de um dos romances mais lidos de sempre e o expoente máximo da carreira literária de Jane Austen. Este magnífico livro (sem dúvida alguma, um dos melhores livros que já tive a ocasião de ler ao longo de toda a minha vida) começa com uma frase sobejamente conhecida e que, para grande pena minha, não é referida no filme:
It is a truth universally acknowledged, that a single man in possession of a good fortune, must be in want of a wife.
A estória gira em torno das cinco filhas da família Bennet, para as quais o casamento é a única carreira possível. A chegada ao seu distrito de residência de dois homens abastados é uma natural causa de excitação e entusiasmo. Mas antes que se possa verificar um final feliz, Mr. Darcy, o herói deste conto, vê-se forçado a conquistar o seu imenso orgulho, enquanto a espirituosa heroína, Elizabeth Bennet, tem que dominar os seus preconceitos para com o herói. Apenas pelo caminho da introspecção as duas personagens principais conseguem atingir um estado de mútua compreensão e encontrar a tão almejada felicidade.

Para aqueles que, como eu, já tiveram a oportunidade de ler o livro, os cortes e ajustes efectuados à estória chegam a poder ser considerados grotescos e privam a audiência de diversos pormenores muito importantes para o seu desenrolar. No entanto, a verdade é que o produto final desta sessão de costura literária é consistente e os que nunca leram o livro verão apenas uma belíssima estória de amor com um princípio, um meio e um fim.

Deborah Moggach fez um bom trabalho no desenvolvimento do screenplay, com o mérito de ter conseguido modernizar um pouco a estória original. Não posso deixar de mencionar a grande actriz que é Emma Thompson, que foi a responsável pela escrita dos diálogos adicionais não presentes no texto original. Embora estes sejam facilmente detectáveis ao longo do filme, encontram-se totalmente integrados no ritmo do filme, não defraudando de forma alguma o espirito da estória, podendo até afirmar que enriquecem o texto original em alguns momentos muito específicos.

Keira Knightley tem um desempenho formidável ao retratar a mítica heroína de Jane Austen, a rebelde Elizabeth Bennet, com a nomeação para o Oscar de Melhor Actriz na cerimónia do passado ano de 2006 a ser totalmente merecida. Matthew Macfadyen deu um toque pessoal àquela que considero a melhor personagem masculina de toda a literatura, o mítico Mr. Fitzwilliam Darcy. Mas seria injusto da minha parte não referir todo o elenco do filme. O processo de casting foi criterioso e todos os actores e actrizes encaixaram que nem uma luva nos seus respectivos papéis.

Não me queixaria absolutamente nada se o filme tivesse uma duração a rondar os 180 minutos, ao invés dos cerca de 130 minutos oficiais, pois fiquei com a clara sensação que o filme apenas teria a ganhar pela introdução de pormenores adicionais que contribuíssem para o desenvolvimento das personagens. Mas a impressão final é que este filme é, de facto, uma adaptação muito bem conseguida do romance em questão, ainda para mais tendo em conta que esta é a primeira longa-metragem realizada por Joe Wright. Uma bela estreia deste jovem realizador de apenas 35 anos.

Pontuação global: 7,5

24 April 2007

Spider-Man 3 faz história

"Spider-Man 3" é o filme mais caro da história do cinema. De acordo com alguns inside reports divulgados, vários factores contribuíram para que tal sucedesse, entre os quais se destacam as reacções menos favoráveis obtidas nas primeiras projecções do filme para audiências seleccionadas. O principal motivo apontado era o de que o filme seria um pouco "parado" e estaria demasiado centrado no desenvolvimento das personagens.

O surpreendente feedback com que a Sony foi confrontada levou a que se procedessem a novas filmagens, obrigando a uma nova injecção de capital no orçamento do filme. Os valores finais que são referidos apontam para um custo total de produção a rondar os US$350.000.000. Se incluirmos os custos associados ao marketing do filme, o valor final será de aproximadamente US$500.000.000.

21 April 2007

(2006) Slither: Slugtastic!


Citizen Kane would have been better if it had slugs from outer-space that turn people into zombies, costumava dizer Orson Welles (é uma citação pouco conhecida). Eu acho que é um truísmo que se aplica a qualquer filme e, em particular, ao filme Slither que, sem essa característica, seria bastante aborrecido.

O filme já tinha sido mencionado (e recomendado) pelo snob fnunes numa antevisão feita no final de Março. A sinopse do Cinecartaz que aí foi usada não é muito correcta. Deixem-me tentar outra:
Um parasita alienígena infecta um tipo, apoderando-se do seu cérebro e transformando-o aos poucos num monstro cujo objectivo é reproduzir-se e capturar mais pessoas. Usando vermes. Muitos.
A estrear-se como realizador de cinema está James Gunn. O argumento é da sua autoria, e a quantidade de gore e sexualidade velada no filme não surpreende se soubermos que Gunn foi argumentista habitual em filmes da indie Troma Entertainment. O filme flui bem, com um bom ritmo, sem nunca se tornar aborrecido.

Gostei do desempenho do elenco principal:
  • Nathan Fillion é o sheriff Bill Pardy. Ele tem que lidar com a crise ainda arranjar tempo para fazer alguns comentários engraçados.
  • Michael Rooker é Grant Grant (sim, duas vezes), o primeiro infectado e, consequentemente, o monstro principal.
  • A bela Elizabeth Banks é Starla Grant. É casada com Grant Grant, que a ama muito. Infelizmente para ela, esse amor continua mesmo após ele se ter tornado num monstro.
  • Gregg Henry (que já deve ter aparecido em milhares de séries de TV) é o mayor Jack MacReady.
  • Tania Saulnier é Kylie Strutemyer, a jovem da banheira que se vê no poster do filme. Bastou essa cena para gostar do desempenho dela.

Apreciação geral: Slither é um misto de terror e humor (terrumor?) que presta uma excelente homenagem aos B-movies sobre invasões alienígenas, estando cheio de referências a grandes clássicos do género. Não deixa de ser um B-movie, mas para quem gosta do género, é bom.

Pontuação global: 7,2 slugs

PS: Tania, quando quiseres tomar um banho sem temer slugs from outer-space, liga-me.

16 April 2007

(2004) Hotel Rwanda


"Hotel Rwanda" é um poderoso filme que retrata a estória de Paul Rusesabagina, um corajoso gerente de hotel que se vê envolvido nos tristes acontecimentos que envolveram o auge da guerra civil no Ruanda no início dos anos 90. O assassinato do presidente do Ruanda serve de motivo para ignorar o tratado de paz assinado poucos dias antes e promovido pela ONU, dando-se início ao genocídio dos cidadãos ruandeses de etnia Tutsi, por parte dos habitantes de etnia Hutu. Mais de um milhão de pessoas foram brutalmente massacradas num período de três meses. Com todos os seus esforços e sacifícios pessoais, Rusesabagina conseguiu salvar 1268 refugiados Tutsi e Hutu, utilizando o hotel que geria como um local de refúgio.

O filme em si padece de um problema inerente à dimensão dos acontecimentos que se propõe a focar. Este pode ser considerado como um conjunto de eventos que se encontram unidos por momentos dramáticos que funcionam como uma espécie de fita-cola cinematográfica. Alguns destes remendos são mais bem sucedidos que outros, mas a qualidade de cada um dos eventos retratados permite ultrapassar este pormenor.

Embora a realização de Terry George seja muito boa, a verdadeira alma deste filme é Don Cheadle com um desempenho fantástico. Conseguiu transmitir-nos a complexidade psicológica da personagem sem qualquer momento menos conseguido. A sua consistência e capacidade de expressão emocional elevou o filme a um nível inquestionável de realismo. Durante a fase de pré-produção do filme, os estúdios interessados queriam actores como Denzel Washington, Wesley Snipes e Will Smith para desempenhar o papel principal.

(NOTA: Will Smith? Por amor de Deus, haja paciência para aturar estes supostos experts dos estúdios. Será que ainda ninguém se apercebeu que este menino não sabe actuar?)

Felizmente, Terry George insistiu com o seu plano inicial de escolher Cheadle para o papel de Paul Rusesabagina e o resultado está à vista de todos. Curiosamente, uma das actuações mais intensas do filme ficou a cargo de Joaquin Phoenix, que desempenhou o papel de um operador de câmara destacado para cobrir os acontecimentos no Ruanda e cujo tempo de antena não ultrapassou aproximadamente 5 minutos. Nick Nolte tem também um papel importantíssimo que traz uma consistência inequívoca a alguns dos momentos mais dramáticos do filme. Embora fosse a única personagem ficcional, esta foi criada com base no oficial canadiano que liderava as forças da paz das Nações Unidas e que, perante a apatia dos seus superiores e indo contra as ordens expressas que tinha, interferiu no conflito da melhor maneira que pode. A angústia e a frustação de estar de mãos atadas perante um genocídio foram muito bem retratadas por Nolte.

De um ponto de vista global, não se pode negar que um tema tão sensível como este poderia ter sido abordado de uma forma menos dramatizada, mas as imagens cruéis e chocantes com que somos confrontados conferem um realismo ao filme que lhe permite ultrapassar quaisquer deficiências que apresente, por muito notórias que sejam. Penso que o filme terá, inclusivamente, conseguido envergonhar alguns dos que poderiam ter evitado os trágicos acontecimentos que se verificaram no Ruanda.

Pontuação global: 8,1